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quindins velhos
by noyz©
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Quinta-feira, Abril 30, 2009
### Alegria de pobre é impossível...
Eu me arrependo de tudo que faço na vida. Se eu como um sanduíche abarrotado de pedaços de bacon, com dois ovos fritos besuntados com maionese e manteiga e uma folha de alface, me arrependo por causa do tamanho da minha pança. Mas se eu não como, me arrependo por causa da fome que sinto.
Me arrependo até hoje de ter arrumado o meu primeiro emprego. E também me arrependo do último. E tenho certeza de que me arrependeria se, com trinta e dois anos na cara, ainda não tivesse arrumado emprego algum. Ou talvez não, não sei, acho até que já me arrependi de ter escrito isso.
Me arrependo de nunca ter ganhado uma bolada na mega sena. E de não ter escovado melhor os meus dentes quando era piá. E de ter ficado tanto tempo cabeludo, e entupindo todos os ralos da casa. E de não ter guardado todas as garrafas que bebi na vida. Se eu pudesse vender todos esses cascos, seria como ganhar uma bolada na mega sena.
Não entendo quando alguém diz que não se arrepende de nada do que fez na vida, e que só se arrepende do que não fez. Eu me arrependo de tudo o que fiz, e também do que não fiz.
: Quindim é saco
: Vai enchendo sem parar
: Até o sovaco.
Assim escreveu Roberval Piriri, que se previne da gripe suína tomando banhos regulares.
postado por quindim#neurótico 4:36 PM
Quinta-feira, Abril 23, 2009
### A luz do Sol demora oito minutos pra chegar à Terra, e oito segundos pra tostar o vivente...
Na última visita que eu fiz ao meu sogro, ele quis me presentear com um coqueiro, mas eu não aceitei. Ele achou estranho que eu não quisesse um coqueiro de vinte metros, e perguntou o motivo da minha recusa. Eu expliquei que, no meu reduzido terreno, aquela árvore gigantesca não se sentiria confortável, que não teria espaço suficiente nem pra expandir suas raízes. Ainda assim ele achou estranho, mas aceitou minha decisão quando proferi a frase: quanto mais alto o coqueiro, mais forte o coco bate na cabeça.
Na penúltima visita que fiz ao meu sogro, ele quis me presentear com um galo de exposição, mas eu não aceitei. Expliquei que não poderia criá-lo da maneira correta, devido a minha falta de aptidão no tratamento de tal animal. Também não teria muito tempo de prepará-lo para competições e exposições, afinal, um animal como esse necessita de exercícios específicos, alimentos específicos e, inclusive, conversas específicas, para que o sucesso não lhe suba a cabeça.
Na antepenúltima visita que fiz ao meu sogro, ele quis me presentear com um par de cágados, mas eu não aceitei. Eles até eram bem bonitos, enfeitariam muito bem a minha sala. Mas, expliquei, o problema é que eles caminham, e de maneira nenhuma ficariam parados em cima da estante. Os cágados gostam mesmo é de viver na natureza, em florestas com terrenos úmidos, perto de lagoas. Realmente eles não se sentiriam bem arranjados em um ambiente de concreto e piso cerâmico.
Faz um bom tempo que eu não visito meu sogro. Medo.
: Quindim é gato
: Some da face da terra
: Se tem churrasco.
Assim escreveu Roberval Piriri, que ama a fauna e a flora, e ama tanto que não dispensa um bom churrasco feito com lenha.
postado por quindim#neurótico 12:20 PM
Quinta-feira, Abril 16, 2009
### Abstinência alcoólica é uma boa, desde que praticada com moderação...
A verdade é que essa última história que eu escrevi, a do Véio Arzildo, nunca aconteceu. O Véio Arzildo sim, existiu. Era um alemão legítimo, usava suspensório, era alto, barrigudo e tinha a cara vermelha. E babava freqüentemente, aparentemente sem nenhum motivo. Mas a história, em si, nunca aconteceu. Foi só um exercício imaginário que eu desenvolvi, também sem nenhum motivo aparente.
O Véio Arzildo tinha um armazém, um buteco de secos e molhados, com muito mais molhados do que secos. Esse era o bar que o meu pai freqüentava, e que eu ia junto, desde a tenra idade de piá. Naquele tempo eu ainda bebia coca-cola pura. E quando eu pedia pra beber a espuma da cerveja do meu pai, ele me virava um tapão nas orelhas. Ele queria algo melhor pra mim, e aquele buteco era muito chinelo. Só anos depois é que eu entendi: ele queria que eu bebesse em um lugar melhor. Só é uma pena que eu não tenha aprendido a lição.
O buteco era azul, porque o Véio Arzildo era um gremista doente. E o chão era pintado de vermelho, só pra que ele pudesse cuspir em uma imagem colorada. Em cima da porta da frente tinha uma placa escrita: Tudo o que não falta tem. Já vi essa frase em outros lugares, e nunca soube se o Véio Arzildo copiou ou foi copiado. Isso é uma coisa que jamais saberei.
E tinha a Dona Cedilha, que era a mulher do Véio Arzildo. Até hoje não sei se esse era realmente o nome dela ou algum apelido. Era uma mulher de um metro e meio e duzentos quilos, com mais bigode do que o marido. Eu nunca ouvi ela falar, talvez até fosse muda. Nunca tive coragem de perguntar sobre isso.
O máximo que eu falava com ela era pra pedir coca-cola pura ou um sanduíche. A Dona Cedilha fazia meus sanduíches com fatias de mortadela e uma maria-mole. Ou, quando a pedido de outros clientes, incrementava com murcilha, queijo, lingüiça ou salame, que ficavam pendurados no teto, ao lado de dois pequenos aviões de plástico, que nunca foram vendidos. Enfim, era isso.
: Quindim é lembrar
: Só não pode esquecer
: De respirar.
Assim escreveu Roberval Piriri, que apesar de se recordar da infância, não lembra o que comeu no almoço.
postado por quindim#neurótico 7:33 AM
Quinta-feira, Abril 09, 2009
### O menor caminho entre dois bares é uma reta...
Quando cheguei ao armazém do Véio Arzildo, às nove da manhã, ele veio me dizer que o barato agora era desafiar a morte. E sem nenhum motivo, o lance era desafiar só por desafiar. Achei graça de ver aquele alemão com a cara vermelha repetir sem parar: É muita adrenalina, gurizão, é muita adrenalina!
O Véio Arzildo me contou que no dia anterior alguém tentou assaltar o seu armazém. Ele não sabe bem porque, mas acabou reagindo e deu um pau no assaltante armado. O meliante tentou atirar nele, mas a arma falhou. E a sensação de quase ter morrido valeu a pena, a melhor sensação dos últimos sessenta anos, segundo ele.
Na verdade eu não tava entendendo muito bem aquele papo, eu só tava ali por causa do meu café da manhã. E foi justamente no momento em que eu pedi uma ceva que o Véio Arzildo pulou o balcão. Ele estava segurando uma faca na mão e babava muito. Me olhou muito sério e disse que ia me matar.
Porra merda! Era só o que me faltava, o dono de um buteco querendo matar um bebedor freqüente. E com a faca já no pescoço tentei argumentei, disse que se ele me matasse perderia, provavelmente, oitenta por cento de suas vendas no mês. Ao escutar isso o barrigudo baixou a faca, mas continuava me olhando com cara de assassino.
Então expliquei, com muita calma, que se ele vendesse pouco não teria dinheiro, e assim, ninguém ia querer assaltá-lo de novo, e, por conseguinte, ele nunca mais teria uma outra experiência como a de ontem. Daí acho que o Véio Arzildo se ligou da merda que ia fazer, largou a faca e deu uma risada: Mas e aí gurizão, é boa essa sensação, hein?
: Quindim é faca
: Corta de cima a baixo
: Do coco à cloaca.
Assim escreveu Roberval Piriri, com a faca e o queijo na mão. E o saca-rolha no bolso.
postado por quindim#neurótico 8:23 AM
Quinta-feira, Abril 02, 2009
### Nem tudo que mia é besouro...
Merda! A minha tentativa de terrorismo poético não deu certo. Nesta segunda-feira fiz o tal churrasco às sete da manhã, aquele pra tentar amofinar os viventes que vivem perto da minha casa, mas não deu certo. Não dá pra acreditar, mas ELES fizeram churrasco na mesma hora que eu! Porra, quem é que neste mundo desgraçado faria um churrasco na manhã de uma segunda-feira?
Apenas dois tipos de pessoas poderiam fazer isso: em primeiro lugar eu, porque, afinal, eu tô de férias, e em segundo lugar o meu vizinho, porque, afinal, essa é a função dele. A existência desse vizinho é um problema pra mim. Ele faz churrasco três vezes por semana, ele faz festa quatro vezes por semana, ele faz algazarra cinco vezes por semana. E o pior, ele nunca me convida pra esses tragoléus.
E já que o papo é tragoléu, foi por causa de um deles que eu desisti daquela minha decisão de não trabalhar na casa. Foi terça-feira de manhã, eu tava bebum, olhei pro portão, olhei pra ferrugem, olhei pros meus pés, olhei pras minhas mãos e pra garrafa, e pensei: Porra, eu vou lixar e pintar essa merda! Peguei umas lixas velhas e fiquei lá, lixando e bebendo, o dia inteiro. No outro dia, quando acordei, vi a merda que tinha feito: eu tinha começado uma obra, e agora tinha que acabar. Bosta.
: Quindim é valor
: Soma absurda que faz
: Virar perdedor.
Assim escreveu Roberval Piriri, que ainda não achou tempo pra comprar um celular.
postado por quindim#neurótico 4:17 PM
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