quindins velhos


by noyz©

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{Quinta-feira, Maio 29, 2008}


### Antes de tarde do que amanhã de manhã...

XV. O Seu DVD me olhou e sorriu, mostrando os seus quatro dentes. Depois se remexeu na cadeira, pegou uma xícara, deu um golão e disse: “Claro meu velho, to vendo nos teus olhos, tu tem futuro, senta ali naquele sofá que eu tenho um servicinho pra ti sim. Mas antes, deixa eu ir ali dentro, ali na outra sala, tenho que fazer umas ligações, mas não esquenta não, tenho o cargo certo pra ti. E vai segurando esse espanador de pó aqui, que é pra tu já te sentir empregado. Espera aí que eu já volto.

Quando voltou, depois de uns vinte minutos, trouxe junto um baixinho barbudo, orelhudo e com o cabelo bem grisalho, um tipinho bem parecido com um duende. E então o baixinho me explicou o trabalho: eu tinha que matar um cara. Não me explicaram muita coisa, só disseram que era pra eu não me preocupar com nada, a grana era fácil, o serviço idem e o assunto não interessava. Era uma jogada política, uma pessoa tinha que morrer, e eu era o cara certo pra efetivar o plano.

Me deram uma arma, uma foto, dinheiro e um crachá. Eu poderia circular pelos corredores do planalto tranqüilamente, teria livre acesso pra me certificar do alvo e do local certo para realizar o atentado. Me deram a chave de uma Motorela e me indicaram onde ela estaria estacionada no dia D. Esta seria a minha ferramenta de fuga, assim que efetuasse a emboscada.

Os dois me apertaram ansiosamente a mão e me deram boa sorte. O Seu DVD me disse que estava esperando a pessoa certa para esse serviço a um bom tempo, e que eu não era pouca merda. Mas não acreditei muito, porque quando eu saí do escritório tinha mais uns três caras esperando com um espanador de pó na mão. Ou pode ser que, de repente, nesse dia eles tavam com falta de tiradores de pó.

: Quindim é morte
: Contraria o pessimismo
: E mata a sorte.

Assim escreveu Roberval Piriri, um baita sortudo: amanhã de tarde, depois das quatro horas, a liberdade brilhará nos olhos pelos próximos trinta dias. Fééééérias, meu guri!


postado por quindim#neurótico 7:01 PM



{Quinta-feira, Maio 22, 2008}


### Emprego bom é emprego morto...

XIV. Depois que me recompus da sensacional exposição do flato, o tiozinho mandou eu ir embora, disse que o presidente ia chegar logo e eu não podia ficar ali peidando. Olhei pro velho e pensei comigo, porra, olha isso, eu podia fazer isso, varrer a rua pra lá e pra cá, esperando que alguém chegasse pra sujar, e depois varrer novamente. E no fim do mês ainda ia ganhar uma grana. Podia passar os finais de semana torrando essa ninharia em algum puteiro, tomando cachaça, dedilhando uma quenga e reclamando do emprego. Que vidão.

Fiquei bem empolgado com a visão de um novo futuro, e perguntei pro velho como conseguia um emprego como o dele. Ele disse que eu tinha que falar o Seu Deividi, o empreiteiro que contratava a peonada. Indicou o caminho e me mandou a merda, enquanto começava a limpar a sujeira que eu tinha deixado com a queima das roupas do Aldair.

Cheguei no escritório do Seu Deividi e falei tudo, sem respirar: “Aí, Seu DVD, eu quero um emprego como aquele que tu deu praquele tiozinho que varre lá na rampa do planalto porque eu to tri a fim de viver nessa de trabalhar e gastar e trabalhar e gastar e não me preocupar com imposto de renda nem com a minha saúde e nem com cuidar de dinheiro porque isso já não deu certo no meu passado e agora que eu sou considerado economicamente hipossuficiente o que eu quero é trampar e depois trampear e depois dormir e quando acordar esquecer de tudo.” Daí, depois de dizer tudo isso, respirei umas três vezes e disse: ”E aí, tem emprego pra mim?”

: Quindim é trampo
: Ganha dinheiro no centro
: Dançando mambo.

Assim escreveu Roberval Piriri, bebendo pra comemorar, e também pra esquecer, que esse é o último feriado do ano, até o natal. Ano bem fudidinho esse, nunca vou me esquecer de 2008.


postado por quindim#neurótico 7:56 AM



{Quinta-feira, Maio 15, 2008}


### Prevenir é melhor que ser pego de surpresa...

XIII. Achei melhor ir embora da casa da Dolores. Não tava mais curtindo, ela vivia dando indiretas, dizendo que eu tinha colocado aquela gilete dentro do gelo do wiski do Aldair. Porra, que merda, tudo era eu? Quem atropelou a Britney e aquela outra debilóide? Fui eu. Quem colocou botox nas sobrancelhas? Fui eu. Quem foi que mandou mudar a direção do vento? Eu, né. E quem perdeu um porcão lotado de dinheiro? É claro que fui eu. Tudo eu.

Botei uma mochila nas costas, que roubei da Dolores, e me fui. Entrei no trem. Fui até a rodoviária. Entrei no ônibus. Dormi até ele parar em uma rodoviária qualquer. Desci do ônibus, caminhei bastante e, quando cansei, sentei em um banco. Olhei pra frente e vi um lugar conhecido, apesar de não saber direito onde eu tava. Puta merda, tava perdidão. Não sabia nem o nome daquela cidade. Só sabia que era domingo porque vi a cara do seu Silvio na TV de um buteco da rodoviária.

Abri a mochila, na esperança de encontrar alguma coisa pra comer, mas só tinha cigarros, isqueiro e roupas sujas do Aldair. O vagabundo tava levando as roupas pra lavar lá na casa daquela imbecil. Usei isso tudo pra fazer uma fogueirinha, assim amortizava um pouco o frio que sentia e também acabava com qualquer lembrança do passado. Queimei e depois mijei em cima.

Um tiozinho com uma vassoura na mão gritou que eu não podia fazer fogo ali na rampa do palácio do planalto. Baixei as calças e mostrei minha bunda suja pra ele. E dei um peido, que estava trancado desde a hora que saí da rodoviária. Quinze segundos, em Dó. Com solfejo e falcete no final. Foi tão bonito que acho que ele até gostou, porque bateu palmas quando acabei.

: Quindim é fogo
: Incendeia a bola
: Se perde o jogo.

Assim escreveu Roberval Piriri, queimando os neurônios pra descobrir um fim pra acabar com essa história de merda.


postado por quindim#neurótico 6:43 PM



{Quinta-feira, Maio 08, 2008}


### Mais vale um padre voando do que dois fornicando...

XII. Toquei fogo naquela merda. Acho até que fiz um bom negócio, aquela Kombi já tava começando a dar bandeira, tava sujeira demais, cara. Dolores me consolou, dizendo que eu tinha feito a coisa certa. Fiquei no sofá da casa dela naquela noite. O Aldair também dormiu por lá, só que na cama daquela jaguatirica desgraçada. A abobada caiu num papo mole que ele largou, quando disse que fazia parte do Priorado de Sião.

No outro dia também fiquei por lá. E fui ficando, o sofá era bom, tinha comida em horários regulares, enfim, eu tava sem dinheiro mesmo, e ali parecia ser o melhor lugar pra ficar. Tava de bem com a vida. Fiquei algumas semanas, e o Aldair ia lá comer a Dolores todas as noites. Mas eu não ficava com ciúmes, mesmo depois de tudo o que tinha acontecido no nosso passado.

Ele sempre levava uns tragos pra lá, o que me garantiu algumas bebedeiras de grátis. Pena que ele acabou morrendo, depois de beber um drink com uma gilete dentro. Até hoje ninguém entende como uma gilete foi parar dentro do gelo do whiski. Mas não era nisso que eu tava preocupado, o que eu queria mesmo era planejar alguma coisa nova, achar alguma coisa pra fazer.

Não foi o Maquiavel quem disse que o homem é capaz de esquecer mais rápido a morte do pai do que o assalto dos seus bens? É velho, eu nem me lembrava mais do nome do meu pai, mas tava puto com a perda total daquele caminhão de dinheiro que eu tinha, tava me desgraçando por ter voltado a ser um chinelão de merda.

: Quindim é trouxa
: Um embrulho polpudo
: De coisa boa.

Assim escreveu Roberval Piriri, fazendo a contagem regressiva pras férias de junho. Faltam só quinze dias úteis...


postado por quindim#neurótico 6:34 PM



{Quinta-feira, Maio 01, 2008}


### Águas passadas não dão cólera...

XI. E era ele mesmo, o velho Aldair. Contou-me que depois que eu o tinha demitido nunca mais arrumou um emprego decente, começou a beber, se envolveu com pessoas estranhas, vivia largado pelos cantos, enfim, estava feliz da vida. Aquela vida de engenheiro era uma merda mesmo, disse que sentia vontade de enfiar o dedo no cú quando se lembrava dos projetos nababescos que fazia pros nababos.

Então, do nada, Aldair arregalou bem os olhos e me disse, com toda a seriedade que conseguiu transmitir: “Aí, descobri a minha real vocação, agora sou sacerdote de uma seita secreta”. Tentei saber mais a respeito da tal seita, mas ele disse que não podia falar nada, porque ELES estavam sempre de olhos e ouvidos atentos a tudo.

Também me contou que tinha aprendido umas coisas novas: “Cara, agora eu tenho o dom, saca, tô integrado no lace dos espíritos, bato altos papos com eles, fantasma é gente fina, mesmo não sendo gente”. Disse-me que, naquele exato momento, tava escutando uma voz dentro da sua cabeça, e a voz dizia que eu tava tri carregado, que tinham botado olho gordo, era macumba, era pipoca com cachaça e vela preta, era galinha velha com um charuto barato no bico.

Olhei meio incrédulo pro Aldair, nunca acreditei muito nessas coisas. Mas a cara dele tava estranha, cheguei a me assustar com aqueles olhos esbugalhados. O cara tava vidradão, falava todo se tremendo, esquisitão mesmo. E disse mais: “Essa tua Kombi também tá possuída. Eu tô vendo, é como se um hacker tivesse colocado um vírus nela. Tu tem que te imunizar! Te livra desse encosto! Bota fogo no Kombão, se não a tua vida não vai pra frente! Ô, tá aqui o isqueiro. Vai lá, campeão. E na volta traz umas cevas pra gente”.

: Quindim é santo
: Quando preciso de ajuda
: Passa voando.

Assim escreveu Roberval Piriri, torcendo pra que os secadores parem de fazer macumba pro Juventude ganhar do Inter. Porque, convenhamos, isso só pode ser uma macumba bem amarrada.



postado por quindim#neurótico 2:40 PM