quindins velhos


by noyz©

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{Quinta-feira, Abril 24, 2008}


### Fedia mais que gato molhado sujo de bosta...

X. Puta merda, eu tinha feito uma grande cagada. E o problema é que eu não lembrava nada do que tinha acontecido. Aquele negócio da Kombi se tremer enquanto eu tinha aquele colapso raivoso, as luzes, os barulhos, porra, será que eu tinha atropelado aquelas duas bagaceiras aloiradas? Como dúvidas existenciais são coisas de viadito, achei melhor pegar a Kombi e ir logo embora dali, até pra saber em que caralho de lugar eu tinha me enfurnado.

Na estrada eu olhava as placas mas não conseguia lê-las, estava realmente abalado com essa coisa toda. Tava travadão mesmo. O que é que eu iria fazer? Então pensei na solução: Dolores. Aquela jaguatirica tava ficando famosa, tinha feito até umas participações no Corra Total, fazendo um papel de madame-gostosa-socialite. Ela deveria conhecer algumas pessoas pra me salvar da merda que eu tinha feito. Ou, pelo menos, daria uma boa bimbada.

Quando Dolores me viu na porta da sua casa, naquele estado incólume de agressões alheias, achou que eu estava muito bem, e me convidou pra ir numa Rave. Ela não conseguia ver que a minha psique estava comprometida, ela só se interessava pelo meu corpinho mesmo. Enfim, fomos pra tal Rave, coisa de louco. Dolores me fez engolir uns comprimidos e me disse pra pensar em coisas boas. Pensei nas duas loiras.

Cara, não devia ter pensado nelas, me bateu uma paranóia fudida. Quando me virei pra pegar uma bebida, vi um espírito correndo na minha direção. Corri um bom tempo fugindo daquele coisa-ruim sacana, que além de me assustar ainda se cagava de rir da minha cara de cagado. Mas uma hora me cansei, e decidi enfrentar aquele diabo, queria saber porque ele estava me perseguindo. Quando vi a cara do capeta entendi porque ele não parava de rir: “Porra, tu não é o Aldair, aquele arquiteto que eu contratei pra fazer aquela piscina no mar?”. Bá, aquele remedinho da Dolores tinha batido forte mesmo.

: Quindim é assim
: Só se sente bem bonito
: Com uns Benflogin.

Assim escreveu Roberval Piriri, tentando usar os conceitos de Maquiavel no seu dia-a-dia profissional. Sem obter nenhum resultado positivo, é claro.


postado por quindim#neurótico 7:38 PM



{Quinta-feira, Abril 17, 2008}


### Pau que nasce torto mija fora da privada...

IX. Escutei um grande estrondo, tive a impressão de que uma bomba atômica tinha caído ali por perto. Muita fumaça, barulho, meus ossos sacolejavam, sensação de cagar e mijar ao mesmo tempo, calafrio, fedor de peido, suor e dor filha-da-puta na cabeça. E então, com um susto, acordei. Tinha tido um pesadelo. Olhei pro lado e vi a Kombi parada, me encarando. Reparei bem na cor: amarela. Nem uma pintinha vermelha. Toda aquela paranóia, as loiras, o barulho, as paredes tremendo, a raiva, tudo tinha sido um sonho mesmo.

Eu tava deitado em um gramado, perto de um rio. Parecia ser um parque, ou camping, um lugar usado pra lazer, sabe, com churrasqueiras espalhadas, mesas de pedra e um quiosque mais afastado. Não tinha a menor idéia de como tinha chegado ali, e nem onde estava, só me lembrava do sonho, das loiras, do barulho. Levantei sentindo o sol matinal me queimando a moleira, devia ser perto do meio da manhã, tipo umas dez horas. E eu não lembrava muito bem de nada, porra, que trago eu devia ter tomado no dia anterior.

Fui dar uma banda no quiosque, pra ver se comia alguma coisa. Cheguei lá e, antes de pedir um xis bacon, dei uma conferia nos meus bolsos. Achei estranho, tinha mais dinheiro do que deveria ter. Normalmente acontece ao contrario, quando a gente acorda bêbado em algum lugar desconhecido, mas tudo bem, não ia me preocupar com isso agora. Antes eu tinha que me lembrar onde foi que eu tinha bebido, e mais, o que tinha bebido pra ficar assim tão pancada. Queria mais.

Comi o pior xis da minha vida, ensopado de maionese, atrolhado de alface, milho mole, ervilha dura, bife fino e pão tostado da maneira errada. Existe uma técnica pra se tostar um pão da forma correta, a chapa tem que estar com a gordurinha da carne, assim o tostado sai crocante mas não seco, entende, quando tu mastiga ele faz barulho, mas não esfarela, e esse é o ponto ideal. Mas aquele pão não, tava tostado a seco, queimado, pra se dar o nome certo. E quando fui pagar a conta, tentei ganhar algum desconto pela comida não conforme, tentei até apelar pro Procon, mas não deu em nada. Então paguei, como um consumidor normal e conformado. Na saída, dei uma olhada no jornal que estava em cima do balcão, e li a manchete: “Britney Spears e Paris Hilton são atropeladas por Kombi misteriosa.” Senti um fisgão no cú.

: Quindim é sonho
: No pão doce tem de recheio
: Muito repolho.

Assim escreveu Roberval Piriri, repetindo um conselho que o velho Bukowsky deu uma vez: “Não se deve sair pra rua depois de passar cinco ou seis ou oito horas bebendo. Eles tem jaulas prontas pra gente como nós.”


postado por quindim#neurótico 6:33 PM



{Quinta-feira, Abril 10, 2008}


### Mulher de amiga minha pra mim é homem...

VIII. Bom, voltei a me animar. Tava, inclusive, tri bem animado, afinal, isso não acontecia todos os dias. Aliás, isso não acontecia nunca. Duas loiras bem fornidas, com pouca roupa e aquelas caras de diaba, me olhando, só faltava o rabinho pontudo. Não tinha como desanimar. Acreditei que tudo aquilo era um despertar atrasado da minha beleza que até então estava escondida, sei lá, achei que de repente tinha ficado bonito, me senti o centro das atenções femininas, porra, o garanhão do lugar. Mas é claro que essa sensação se esvaiu em menos de dez segundos, assim que a mais loira e menos vestida perguntou, com um sotaque meio estranho, de quem era aquela Kombi amarela.

Levantei o dedo e disse, forçando uma voz de macho: “Essa jóia é minha, porque princesa?”. Ainda estava com alguma esperança de que ela se entregasse em meus braços e dissesse: “Sempre senti tesão por homens que dirigem Kombi”, mas, na verdade, o que ela disse foi: ”Tira esse merda daí, que tá atropalhando o Audi do minha namorada”. E, depois de cuspir no chão, me deu um empurrão que me fez sentir falta de ar. Ainda disse, antes de voltar de onde tinha vindo: “Vomos emborra dequi, deixa esse chinelon pro lá. Ven comigo lindona, que é hoze que a teu coro vai sofrer”.

Porra, essa foi a gota da cachaça, isso foi o fim da piscada, esse foi o março fundamental, foi a pedra que soprou, foi o vento que caiu, foi a bosta, foi a remela, foi o fim do caminho. “Ahhhhh!” – berrei – “Puta que pariu, vamo pará com essa merda, e é pra já! Ceis tão pensando o quê? Que eu tô aqui pra contar história, ah não, eu quero é mais, quero é parar de falar! A partir de agora eu não gosto mais de falar, não falem mais comigo que eu não vou responder! Eu vou embora, vou morar bem longe, onde as bostas das vacas dão cogumelos, vou morar onde as trevas são azuis, sim tem um lugar assim, trevas azuis, areias vermelhas!”

Entrei na Kombi e virei a chave. A tranqueira deu um urro quando ligou, parecia que tava irritada também, tava possuída, a Kombi entrou na minha raiva, participou da minha fúria, ela sentia o que eu sentia. Eu acelerava e as paredes da Kombi tremiam, as luzes piscavam, a fumaça subia. Era como se eu fosse um vírus, um vírus mortal, que invade um corpo e devasta sua composição normal. Tudo estava diferente. Não sei se era coisa da minha cabeça, mas a cor amarelada da lataria foi se transformado, ficou alaranjada, vermelhou, virou um pimentão, ganhou um brilho vermelho. Sem saber o que estava fazendo, pisei no acelerador e o barulho dos pneus cantando me ensurdeceram. Antes das minhas vistas escurecerem, ainda escutei a voz de uma das loiras: “Ui, tadinho do bichinha, tá de TPM!”

: Quindim é ira
: Quando quer se acalmar
: Cura com bira.

Assim escreveu Roberval Piriri, tomando uma batida de maracujá pra se acalmar, e também pra homenagear o bar Timbuca. Um grande buteco, que passou dessa pra uma melhor.


postado por quindim#neurótico 5:34 PM



{Quinta-feira, Abril 03, 2008}


### “Não esquenta a cabeça, se não a caspa vira mandiopã.” (do livro Feliz Ano Velho)...

VII. Depois de alguns meses limpando os vômitos do banheiro do Bar Do Lores, inclusive os meus, por força de uma náusea constante que sentia em tal faina, enchi o meu saco e acabei vendendo a espelunca. Vendi pro próprio Ênio, o olho-do-cú, que me pagou com umas tralhas que tinha em casa. Deu-me um sofá, que por não ter onde guardar, acabei deixando em uma parada de ônibus, um liquidificador estragado, que acabei jogando fora, e uma Kombi, o bem realmente substancial da troca. Ou quase isso.

A Kombi era amarela, e só pra se ter uma idéia das condições gerais dela, a direção da Kombi não tinha folga, tinha férias. Mas ainda andava, e isso já era o suficiente pra mim. Apesar de que andava pouco, tudo bem, tenho que confessar. De duas tentativas, em uma ela ia. Mas cinqüenta por cento já é um valor razoável. É como escreveu alguém, que eu não me lembro o nome, em um livro, que eu não me lembro qual, e que, aliás, também não sei quando foi: “pra quem não tem nada, ganhar a metade é ter o dobro”.

Então enchi o tanque da tranqueira e fui pro mundo. Ainda tinha uma rebarba daquele dinheiro que ganhei com a “Sombrançais”, mas não era muito. Na verdade, sejamos francos, eu não tinha muito o que fazer, essa escolha foi quase que uma obrigação. Eu tava em uma mesa verde, e no dado lançado apareceu o número cinco. Essa era a quinta chance que eu tinha de me dar bem nessa minha vida desgraçada. Porque, há, vai se fuder, que vidinha fudida essa.

É, eu tava bem desanimado, as coisas iam e vinham, eu ganhava e perdia, numa hora eu tinha tudo, noutra, tava na merda. Já tava cansado dessa instabilidade. E então, depois de pensar nos meus pecados ajoelhado ao lado da Kombi, tentando rezar pra ver se aquela bosta melhorasse, aparecem duas loiras quase praticamente seminuas. Não sei como explicar, não sei de onde apareceram ou o que queriam, só sei que mandei a minha reza pro quinto dos infernos, afinal, essa imagem, apesar de lembrar o paraíso, certamente não podia ser coisa do céu. Então, pensei: “Tô vendo que vou acabar ao lado do diabo, curtindo um foguinho. Ah, foda-se!”

: Quindim é demo
: Penteia os chifres pro lado
: Parece emo.

Assim escreveu Roberval Piriri, que não é anjo nem demônio, nunca gostou de mandiopã, sempre quis ter uma Kombi e não se importa com o que os outros pensam a respeito disso.


postado por quindim#neurótico 5:36 PM