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quindins velhos
by noyz©
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Quinta-feira, Março 27, 2008
### O olho de um avestruz é maior do que o seu cérebro...
VI. Depois de muito pesquisar, abri o meu bar. Achei o lugar ideal, aluguei de um velho chamado Ênio, que sempre trabalhou naquele ponto. Era um bar já bem conhecido, enfim, era perfeito pro recomeço da minha carreira de botequeiro, ou melhor, pro começo da minha carreira de administrador de boteco. Botei uma placa bem bonita na entrada: Bar Do Lores. É, eu ainda tava com meus cotovelos do loridos.
O negócio prosperou, apesar daquele olho-do-cú do Ênio, que sempre aumentava o preço do aluguel. E, além disso, vivia bebendo por lá, aliás, ele vivia lá no bar, no Meu bar. Ele passava o dia bebendo lá, e depois acabava dormindo em cima das mesas. Filho da puta, eu também devia ter cobrado aluguel dele. Daria pra amortizar o valor quer ele me cobrava.
O lugar era freqüentado por gente legal, só trabalhadores. O pessoal saía do emprego e vinha gastar o salário em cachaça. Eu também empurrava pra eles uns quitutes, afinal, o pessoal também precisava comer. Cheguei a me associar com um cara que comercializava murcilha. E pra progredir nos negócios, fiz até uma promoção: duzentos gramas da murcilha por cinqüenta centavos, e o camarada ainda levava uma cachaça de brinde.
Como dá pra notar, o movimento até que era grande, mas o resultado final era ínfimo. Eu só lidava com moedas, e isso, prum cara que se acostumou a manejar com notas de cem, era degradante. Comecei, também, a me enojar de ter que limpar os vômitos do banheiro. Cachaça com murcilha nunca foi uma boa combinação. Isso não ia ter futuro.
: Quindim é trago
: A cabeça fica supimpa
: O fígado furado.
Assim escreveu Roberval Piriri, que só tem uma coisa pra te dizer: “O pior de tudo é ter que aturar esse teu bafo de pingola!”
postado por quindim#neurótico 5:24 PM
Quinta-feira, Março 20, 2008
### Coelhinho, não pula / Ou quebra os ovos / No meio da rua...
V. Então voltei a ficar na merda, apesar de todo dinheiro que ganhei com o lance da palavra que inventei, aquela do recheio botulínico das sobrancelhas. Dolores foi embora mesmo, meus churrasquinhos dominicais de lagarto acabaram, as macacas nunca mais voltaram com medo, e aquela mala de dinheiro passava o dia inteiro me olhando. E dinheiro, naquele contexto, era nada. Lá não se comprava comida com dinheiro. Na selva, comida se conquistava na base da força. E eu começava a cansar. Já não tinha mais a mesma vontade de antes. E aquele dinheiro me olhava. Eu tinha que fazer alguma coisa.
Resolvi voltar pra civilização. Minha aparência, depois de tantos anos vivendo no mato, assustou um pouco o pessoal. Mas depois de algum tempo de conversa, explicando a minha situação, e, claro, mostrando os maços de dinheiro, consegui alugar um quarto em um hotelzinho fuleiro de beira de estrada.
Assim que entrei no quarto, escutei a dona do lugar dizer que era bom eu tomar um banho. Eu não tava mais acostumado com isso, mas foi o que eu fiz. E foi como se fosse o primeiro banho da minha vida. Vi a água preta descendo pelos meus pés. Não sei como Dolores me agüentava. Eu tava podre mesmo. Aproveitei e pelei a barba, cortei uns nacos de cabelo e as unhas, a parte mais difícil de ajeitar. Depois de três horas estava novo. Eu era um terráqueo novamente.
Entrei no primeiro táxi, e mandei tocar direto pro aeroporto, e chegando lá, peguei o primeiro avião, queria ir embora, queria ir de volta pra casa, ia recomeçar essa minha vida estranha, vida desgraçada, caceta, que porra de vida, decidi que ia abrir um bar, sabe, aproveitar esse dinheiro e abrir um negócio pra mim, viver na boa, não ia mais me meter em encrencas, ia só curtir o movimento, sem paranóias, sem contratempos, enfim, me manter, viver do meu trabalho, ser o meu chefe, não criar mais problemas, entende, sei lá, achar o meu lance, e, que tal, de repente, talvez isso pudesse dar certo, a idéia era boa, viver disso, puta merda, eu queria realmente, queria que acontecesse, era a minha intenção quando, bem, pensei nisso, mas, puta que pariu, eu sei, uma frase tão longa, e tão cheia de vírgulas, só podia dar em merda.
: Quindim é pouco
: O cara sempre quer mais
: Remédio de louco.
Assim escreveu Roberval Piriri, ou a pedra fundamental da chinelagem humana, ou o chinelo fundamental da pedrada humana. Ou não.
postado por quindim#neurótico 6:39 PM
Quinta-feira, Março 13, 2008
### Que belo dia pra ficar triste...
IV. Depois que fugi, fui me ocultar na Amazônia, em mata fechada. Vivi muito tempo escondido em uma caverna, e fui esquecido pelo tempo, pelos credores, pelo mundo. Nos primeiros anos foi difícil, mas consegui me adaptar. Voltei a viver em paz, me alimentava de raízes, vermes e pequenos animais que caçava. Bebia água do rio e cagava sem culpa de sujar o chão. Sentia-me voltando as minhas raízes. Era como um macaco, buscava o que precisava para hoje, e somente hoje. Não pensava em amanhã, só em agora.
Comecei, também, a me interessar pelas fêmeas do local. Meio que sem querer, acabei me engraçando com uma jaguatirica, que chamei de Dolores. Ela era legal, sempre me trazia alimento das suas caçadas. Todo domingo vinha com um lagarto entre os dentes. Ela tinha a manha. Pena que era muito ciumenta. Matou várias macacas gostosinhas, que ficavam saltitando perto da minha caverna.
Um dia, quando chegava do almoço, encontrei um cara de terno na porta da minha caverna. Ele me olhou mais desconfiado do que eu pra ele. Perguntei quem ele era e ele fez a mesma pergunta pra mim. Ficamos alguns minutos nessa lengalenga, se analisando, se estudando, até que ele disse que era advogado de uma multinacional especializada em produtos de beleza. Eu disse que não precisava comprar nada, e ele rechaçou que eu estava com uma aparência péssima, mas que não estava ali pra vender nada. Queria sim era negociar comigo.
Sombrançais. Foi por causa dessa palavra, que eu havia mandado registrar no dicionário, que estavam atrás de mim. Queriam comprar os direitos autorais pra lançar uma nova linha de cosméticos. Eu disse que tava cagando e andando pra palavra, pros direitos e pro dinheiro, mas ele insistiu e me entregou uma pasta cheia de grana. Depois que assinei alguns papéis, ele perguntou se podia levar a Dolores pra participar da campanha publicitária da nova marca: “Sombrançais, a natureza em seus olhos”. Quando ele mencionou que as propagandas seriam veiculadas em horário nobre da TV, a puta da Dolores se mandou com o advogado. Ela sempre sonhou em aparecer na TV.
: Quindim é venda
: Quem compra só se fode
: Com essa lenda.
Assim escreveu Roberval Piriri, vendedor, embalador e entregador de falácias.
postado por quindim#neurótico 6:24 PM
Quinta-feira, Março 06, 2008
### Presente é aquilo que fica espremido entre o passado decorrido e o futuro imediato...
III. Mas o dinheiro, junto com todas as suas vantagens, começou a me enjoar. Vomitava mais do que as pessoas que me olhavam atravessado, quando eu mostrava os meus botox sombrançais. Aliás, esta palavra, sombrançais, não existia no dicionário. Então gastei mais uns milhões nisso e mandei botar.
Cara, aquele merda toda, aqueles montes de dinheiros, isso tudo tava me apertando a garganta. Eu não conseguia respirar. Tava tri magüari, compreende. Tava tri magoado com aquela situação. Não me contentava mais com setecentos gramas de camarão, mais açafrão, alho e óleo, eu queria era passar fome de novo. Isso sim, talvez, poderia me soltar as amarras do pescoço.
As altas multas que ganhei nesse período de esbanjamento me ajudaram muito nisso. Normalmente, fazendo comparações humanas, altas multas pra quem é cheio de dinheiro é como punir mosca varejeira a viver na merda. Mas eu reverti essa situação, sempre tinha a melhor política pra representar e discursar as coisas que eu queria, que eu pensava. Mas agora como não penso, penso melhor calado.
Enfim, o dinheiro acabou. Foi-se com o pagamento de impostos e multas. Depois disso, muita coisa mudou, muito mais do que quando eu ganhei essa bolada. Do meu lado apareceram pessoas com maldade no coração. Tinham o mal por dentro, e faziam questão de exteriorá-lo. O perigo começava a me rondar, dívidas que deixei, papéis que atrasei, palavras que não honrei. Dos credores levei perdigotos na cara, e tive que correr muito pra salvar essa carcacinha de ouro, meu único tesouro. Foi só o que me sobrou.
: Quindim é caro
: Quem não pagar o preço
: É muito avaro.
Assim escreveu Roberval Piriri, tentando baixar o programa do imposto de renda antes que acabe o prazo de entrega.
postado por quindim#neurótico 2:48 PM
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