quindins velhos


by noyz©

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{Quinta-feira, Novembro 29, 2007}


### A rua não é lugar para amadores...

Sálvio Justino Apócrifo tinha um braço menor que o outro. Deficiência de nascença. Durante toda sua juventude ouviu piadinhas sobre o seu problema, além de apelidos dos mais variados: meia-bronha, por causa do meio braço; coça-teta, por que a mão do braço mais curto ficava balançando na altura do peito; seis-e-meia, já que os braços pra baixo formavam os ponteiros da hora e minuto de um relógio. Ele sempre teve que agüentar essas brincadeirinhas de mau gosto, mas sabia que um dia elas iriam acabar. Ele seria um homem de respeito.

E foi. Estudou, se formou, trabalhou e virou um advogado de respeito. Enfim, um homem de respeito. Ninguém mais caçoava do seu defeito. E depois que assumiu um cargo de confiança no ministério público, aí sim, chegou a ser bajulado. Agora era conhecido como o braço forte da justiça, enxuto e eficiente.

Mas voltou a ser motivo de escracho e chacota quando foi preso, acusado de tráfico de influências dentro do governo. E não tinha como não rir, era muito estranho vê-lo no noticiário da TV, fazendo acrobacias para se ajeitar nas algemas.

: Quindim é preso
: Come e dorme na cadeia
: Baita obeso.

Assim escreveu Roberval Piriri, um amador nesse lance de algemas. Prefere a sua fantasia do Bozo, acha mais sexy e tal.


postado por quindim#neurótico 8:46 PM


ENVENENADO

Olhou a palma da mão vazia, pontinhos esparsos de suor brilhavam. A linha da vida, observou, levando a mão aberta na parede da sala. Depois a outra mão e um pé. Deu o impulso inicial e subiu bem devagar até um canto da sala. Mais perto agora, pensou, observando a aranha de pernas compridas e bunda acentuada. Umedeceu os lábios, que logo se esticaram para tocar a bundinha vermelha, em forma de beijo. Mas Ela fugia. Entre uma tentativa e outra ele se esgueirava ora pelo teto, ora pela parede, repetindo vagamente que não devia beber tanto. Que devia ser o bafo. E Ela fugia para os lados, onde já não haviam mais teias. Por um momento pesou que conseguiria encurralar a aranha, e antes que investisse novamente os lábios tensos contra o pequeno corpo daquela que se negava a recebê-lo, teve uma idéia. Encostou o ouvido no teto tentando identificar os ruídos que vinham do outro apartamento. Ouvia passos arrastados, se distraia imaginando pantufa peluda gemendo contra o parquê, somando-se ao tilintar da colherinha contra xícara, um pigarro familiar. Sentiu-se de repente cansado. Teve vontade de esticar o corpo, espreguiçar, mas sabia que suas mãos ainda suavam, era preciso resistir apenas mais um pouco. Posicionou-se num outro canto da sala, deixando o braço e a perna direita na parede da direita, o braço e a perna esquerda grudadas na parede da esquerda. As costas contra o teto e a cabeça pendia para o chão, embora mantivesse o olhar firme nas penas da aranha. Já era tarde, sentia. Altas as horas da madrugada, de um dia como tantos outros, e a fraqueza sem o menor sinal de amor. Sentia-se ressecado, duro e sujo. Sabia que as mãos secavam também. Ainda era capaz de ouvir o vizinho em sua faina insone de arrastar as pantufas dum cômodo para o outro. Seus olhos queriam desistir, e se deixar engolir pelas pálpebras exaustas. Concentrou-se no passo que se afastavam, mas não tinha certeza, talvez fosse apenas o sono pesando muito. Só quando uma porta bateu, outro andar, pelo peso porta da rua escada, e mais passos se foram para algum lado da noite. Não soube ao certo quanto tempo depois ouviu as pancadas em sua porta. A campainha fazia alarde, mas já era tarde e seus olhos se fechavam devagar. O corpo despenca.
De baixo do sofá as aranhas se agitam, movem-se na direção das mãos espalmadas ressequidas. Do outro lado da porta o Vizinho tenta espiar dentro do olho mágico.


postado por quindim#neurótico 5:20 PM



{Sábado, Novembro 24, 2007}


Melhor maneira de dar desculpas à mulher
Parte 1

Eu tava lá, parado na sinaleira, de repente chegou aquela menina,
sim porque era uma guriazinha, me apontou um borrifador e disse,
ei doto, se não me deixar entrar no carro, eu borrifo em tu!

Amor, imagina só, ela tinha ácido, imediatamente abri a porta e ela entrou,
toca prum moté, disse ela, e eu, ma-ma-ma-mas eu sou casado, toca de uma veiz.
Não tive outra alternativa, fui.
Por isso que além de chegar a essa hora em casa eu to com esse chupão no pescoço.
Cumé? Se eu não dei parte na polícia?
Não amor, não dei, achei melhor não dar,
eu fiquei com medo de represalhas e também pra te proteger, né amor,
imagina se ela vem aqui e desconta em ti, não, deuzulivre aquele demônio tocar ácido em vc,
deuzulivre!

É o Velho Luck, dando uma volta pelo Quindim!

postado por quindim#neurótico 1:19 PM



{Quinta-feira, Novembro 22, 2007}


### Foda mesmo é encher a boca de farinha e falar: “Fai fe fufer!”...

Rossano Aquino Rego não tinha outra opção. Pulou dentro do valão. Era a única maneira de salvar a sua vida, o cara ia atirar nele. Era o valão ou a morte. A culpa foi dela, tão perigosa quanto a arma. Ela era terrível, sempre provocando, se exibindo. E ele estava a um bom tempo solteiro, sabe como é, na seca, suando em sonhos a noite inteira.

Um dia ele não segurou o seu desejo e correu em direção ao lago, onde ela, distraída, olhava para o horizonte. Eles se encararam, ela balançou a cabeça, fez jeitinho de tímida, e mostrou a pontinha da língua, só pra desafiar. Ele não agüentou a provocação e partiu pra cima, se grudou feito bicho. E foi uma loucura, volúpia intensa, os berros de prazer, ela se contorcia toda, ele se espichava todo.

Depois desse dia, começaram a se ver sempre. Ela gostava, nunca tinha tido isso em casa. Descobriu, enfim, o prazer. Mas a coisa desandou depois de algum tempo, quando as más línguas espalharam a história pela cidade. E um certo alguém não gostou do que ouviu. O casal foi pego no ato, a arma foi apontada e o grito de pavor ecoou: “Larga da minha vaca, feladaputa!”.

: Quindim é sexo
: É deste tamanho, mas
: Cheio de complexo.

Assim escreveu Roberval Piriri, botando pra fuder. No bom sentindo, é claro.


postado por quindim#neurótico 9:06 PM



{Quarta-feira, Novembro 21, 2007}


Neurótico sem dúvida
ou
Carlos Fucki'n' Fly: o menino em loop



Mãe, o que é um neurótico?
Ah meu filho, é assim... uma pessoa com problemas na cabeça.
Então quem não tem cabelo é neurótico?
Não, querido, só quem tem problemas dentro da cabeça.
Como assim, Mãe?
Ah, meu filho, olha só o teu pai, só fica na frente daquele computador, agora acha que é escritor
e fica digitando tudo que agente fala. Ele deve ter algum problema, entendeu?
Mais ou menos.
Querido, esquece isso e vai estudar para a tua prova de matemática, tá.

* * *

Pai, o que é um neurótico?
Peraí só um pouquinho, tá fío?
Tá.
Hum, Dicionário digital, aqui, achei, escuta só: "Neurótico: Indivíduo que padece de neurose."
O quê que é neurose?
Hum, peraí..
Aqui, achei: "Designação geral dada a qualquer doença nervosa, sem lesão aparente"
Hum, acho que entendi, mas... Pai?
Que.
Tu é neurótico?
Eu? eu não cara, a tua mãe é que é. Já viu como ela fica quando agente assoa o nariz perto dela? Dá chilique na véia, diz que é nojento...
E além do mais se eu fosse um neurótico, tu acha que eu conseguiria escrever uma história pra publicar na internet?
Não sei Pai.
Pô Carlitos, vai brincar lá na rua, deixa o pai terminar esse conto aqui, ele vai ficar muito doido! hehehe!

* * *

Professora?
Sim, Carlos.
O que é um neurótico.
Pessoal, atenção, à pergunta do colega de vocês; Ele quer saber o que é um neurótico. Alguém sabe?
Todos os alunos começam a rir desesperadamente, mesmo sem vontade alguns conseguem ficar com a cara vermelha de fazer força pra gargalhar.
A professora pede silêncio, gesticula feito maestro destrambelhado, sua voz não é forte e a algazarra das crianças encobre tudo.
Ela deixa as crianças se divertindo, sai da sala.
Carlos está vermelho de vergonha, pois até o guri mais burro da turma está rindo dele.
A professora volta com uma régua de 80cm, de madeira e espanca o tema de casa que está no quadro negro. Suas feições tornam-se assustadoras
para algumas crianças que fazem menção de chorar, mas são logo desistem ao escutar a voz grave e baixa da professora: Calem-essa-boca.

Carlos, está com medo e a turma está visivelmente chocada, o silêncio é geral. A professora joga a régua na mesa, pega o giz e escreve: Neur. O giz quebra e ela vai pegar outro na caixa, mas já é tarde, soa o alarme. As crianças correm para a porta inclusive Carlos, esmagando e se empurrando-se para chegarem em suas casas e contar tudo aos sues pais.

* * *

É noite, Calos está no computador, ele faz uma busca pela palavra neurótico no Google. Muitos resultados que ele julga em sua maioria complexos, extensos ou chatos demais. No entanto um novo questionamento invade o seu ser, e intriga ao ponto de fazê-lo clicar: O que será um Quindim Neurótico?



postado por quindim#neurótico 4:54 PM



{Quinta-feira, Novembro 15, 2007}


### O Rei da Espanha falando com o Chaves: Cale-se, cale-se, cale-se, você me deixa louco...

Queilor Pawer Jr. era muito sistemático. Tudo o que fazia na vida tinha uma seqüência lógica e irritante, inclusive em se tratando da sua saúde. Quando tinha apenas 5 anos de vida, contraiu uma infecção hospitalar, depois de tomar uma vacina, que o fez ficar lá por alguns meses. Sofreu muito, mesmo sem se lembrar muito bem. Mas não morreu.

Com 10 anos foi atacado por um cachorro feroz, enquanto brincava na frente de casa. Teve partes do seu corpo dilaceradas, ficou muito tempo internado, mas não morreu. Com 15 anos quebrou vários ossos depois de cair de um brinquedo giratório em um parque de diversões, ficou todo fudido, mas não morreu. Com 20 foi assaltado enquanto voltava de uma festa e levou um tiro, ficou na UTI, mas não morreu. Com 25 acidentou-se de moto, ficou em coma por 5 meses, mas não morreu. Com 30 teve dengue hemorrágica, mas não morreu. Com 35 quebrou a perna, quando tentava jogar futebol com o pessoal do escritório. E o gesso, que ia do pé até a virilha, fazia ele morrer de coceira.

Aos 40 achou que não tinha nada. Só achou mesmo aos 45 anos, depois de um exame de rotina, onde descobriu que tinha um câncer na próstata. Mas mesmo com o atraso, conseguiu se tratar a tempo e não morreu. Morreu mesmo aos 50 anos, depois de escorregar no banheiro e bater com a cabeça no chão. Até pra morrer ele foi sistemático. E além de sistemático, era muito azarado.

: Quindim é azar
: Mas só acontece quando
: Se vai respirar.

Assim escreveu Roberval Piriri, respirando baixinho, pra ninguém me mandar parar de respirar.


postado por quindim#neurótico 8:26 AM



{Quinta-feira, Novembro 08, 2007}


### O mundo não é ruim, é apenas mal freqüentado (essa é do Veríssimo)...

Passos Dias Amofar não gostava da sogra. Vivia aprontando com a velha, que além de ser muito charopona e intrometida, ainda era acometida de um grave distúrbio intestinal: desarranjo nervoso. E o genro, sabedor da disfunção da sogra, descontava seu desgosto usando essa arma, a única que tinha.

Ficava o dia inteiro dando sustos na velha. Às vezes eram apenas pequenos sustos, alguns eram mais planejados, mas uma noite ele exagerou na dose. Escondeu-se no quintal da casa e soltou alguns fogos de artifício, que iluminaram todo o céu. Com uma cara de pavor, correu em direção à sogra dizendo que aquelas luzes eram discos voadores, e que tinham vindo para buscar ela. O pânico se instalou na velha, que se cagou de susto.

E foi naquela noite mesmo que aconteceu. Depois das explicações para acalmar a velha, todos foram dormir. Mas a velha não acordou mais, morreu durante o sono. Bateu as botas dormindo como um anjo. Ataque do coração. Dizem que empacotou por causa do acumulo de sustos, já que quando a encontraram sem vida, estava toda cagada.

: Quindim é susto
: Mistura de chupa cabra
: Com come cusco.

Assim escreveu Roberval Piriri, que fez uma batida usando leite com água oxigenada e agora está cagando loiro.


postado por quindim#neurótico 8:45 PM



{Quinta-feira, Novembro 01, 2007}


### Leite super longa vida Parmalat: e aí, tomou?...

Otalvino Branco da Panca olhava o seu rosto, pendurado na parede de casa. O espelho parecia um quadro, uma pintura, uma foto. Imóvel, olhava-se fixamente, olho no olho. Não piscava, e não se sentia incomodado com isso. A boca seca, língua morta. Nenhuma coceira no nariz, não tremia, não tinha movimento nenhum.

Era o que fazia. Trocava toda a energia, que seria gasta em movimentos corporais, com pensamentos e divagações. Ficava assim por horas, parado, se olhando no espelho e pensando. Isso trazia uma sensação boa. Uma das poucas que tinha.

E se olhava, só uma figura, no rosto uma paisagem. Um lugar conhecido mas diferente. Vivia ali, mas não entendia o que via. Olhava um mundo novo no seu rosto. Novidades resgatadas do baú de sonhos esquecidos. Do início ao fim, um paraíso que existe em seus olhos, mas que ninguém enxergava. E então piscava, e se desfazia do irreal, e se mexia, e vivia, e bebia mais um gole, e se programava para voltar ao espelho amanhã.

: Quindim é leite
: Foi batizado ontem
: Ainda tá quente.

Assim escreveu Roberval Piriri, berrando em homenagem ao feriado de sexta: A copa do bar é nossa!


postado por quindim#neurótico 8:34 PM